Ninguém vai me amar como você

423
0
Compartilhe:

 

 Deixo que meus passos lentos me encaminhem até você.  Respiro fundo e aqui estou, olhando para você e sentindo um turbilhão de coisas que achei que nunca mais ia sentir desde que você partiu. Você não parece ter mudado muita coisa, se me permite dizer, mas eu acho que internamente virou outra pessoa.
Seus olhos continuam iguais, o sorriso ainda é sem graça e envergonhado como se morresse de medo de se expor e o cabelo continua desgranhado com aquele toque especial de artista que todos os ao seu redor costumavam amar. Menos você. Mas era lindo, você quem não percebia.
Estou imóvel tentando observar cada detalhe da sua pele, da curvinha da sua boca, do nariz empinadinho na ponta. Não achei que fosse ter coragem suficiente para voltar à te encarar, serei sincera. Afinal, você partiu porque eu praticamente te empurrei para fora. Achei que nunca mais ia conseguir ter a atitude de querer encontrar e me conectar com você outra vez. Mas cá estou eu.
O que aconteceu para eu tão repentinamente resolver te ver? Acho que cresci. Deixei para lá as mágoas e todos aqueles pensamentos idiotas que eu tive quando deixei você partir. Porque você sabe, as companhias me levaram a crer que era melhor excluir você. Não foi. Me tornei amarga, fria e minhas covinhas pararam de aparecer com as gargalhadas, porque elas também não vinham.
Tá. Eu sei! Não vou ser hipócrita. Foi legal por um tempo, sair com um monte de gente nova, me apaixonar por um cara lindo de morrer e de me arrancar o fôlego, mudar o meu guarda-roupa inteirinho. Mas a graça passou, porque ele me deixou plantada do lado do telefone no dia seguinte, e depois, e depois. Os amigos dele também.

Leia também:  Amores (im)possíveis

Minhas roupas começaram a parecer apertadas demais do dia para noite.

E aí hoje, depois de muitos meses tentando me justificar para mim, resolvi te procurar. Meu orgulho bobo me deixou mergulhada na insegurança por tanto tempo que dá até vontade de brigar comigo mesma. Fui enganada. Acreditei na ideia de que alguém um dia iria apreciar mais os meus ossinhos do que você.
Eu sei, idiotice, não? Ninguém vai me amar como você. Você me coloca em primeiro lugar, sabe as roupas que eu quero vestir e como elas são confortáveis. Seu amor é incondicional, sempre foi.
Dito isso, aceito quem sou. Aceito que não preciso mudar nada em mim para agradar ninguém. Dane-se o que eles querem. Eu me amo. Eu te amo. Eu amo esse cabelo desgranhado e eu não quero que ele pareça arrumado para um bando de gente que não aprecia a arte que ele esconde.
Finalmente observo seu sorriso, meu sorriso. Eu. Depois de todo esse tempo, consigo ver que você era tudo o que me faltava. Eu mesma era tudo o que me faltava.
Termino de sorrir e de observar minhas covinhas cravadas nas bochechas e me sinto orgulhosa do meu próprio reflexo. Dessa vez, não vou me deixar ir embora por nada e nem por ninguém.
Deixo meu espelho favorito pendurado na parede do quarto e visto minhas roupas largas, me sentindo finalmente pronta.
Ninguém vai me amar como eu devo me amar.