Ah, saudade! Hoje tô meio cansada de você!

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SA.U.DA.DE – Sentimento melancólico devido ao afastamento de uma pessoa, uma coisa ou um lugar, ou à ausência de experiências prazerosas já vividas.

Já falei de você, senhora. Várias vezes, de diversas maneiras diferentes. E essa foto que copiei de um poema lindo de Pablo Neruda, me faz ter vontade de falar de você novamente, porque é teimosa, gosta de me visitar, mesmo quando deixei um bilhete bem grande na porta dizendo: SAUDADE, PASSE AMANHÃ. Você não passa… Nem em um verbo, nem em outro. Teimosa!

Sabe que o Pablo foi até justo ao te descrever e não puxar tanto seu saco, porque eu gosto de você, mas às vezes você não me parece tão legal assim. Ele (o Pablo) estava lá contando que você é “solidão acompanhada, é quando o amor ainda não foi embora, mas o amado já.” Solta a mão da solidão, minha amiga. Vem só você, e me mostra que você só ficou porque está me mostrando que permanece onde existiram coisas boas.

Ele (o Pablo) disse também que quando você fica, é porque a gente anda amando um passado que ainda não passou, vivendo um presente que machuca… É verdade o que Pablo disse de você?

Porque ele disse mais… Andou dizendo que só quer ter saudade que nunca amou, e que

“E esse é o maior dos sofrimentos:

não ter por quem sentir saudades,

passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido”.

Sei não se concordo. Sofre quem nunca sofreu? Ou talvez eu concorde. Viver arranca uns pedaços da gente…E não viver? Mas olha, não quero fazer intriga, porque eu sempre defendi que você existe onde o que ficou foi bom. Só que eu preciso te abrir os olhos, andam dizendo que você está pelas ruas de mãos dadas com o sofrimento e a solidão. E sabe o que diz o ditado “diga-me com andas, que te direi quem és”.

Estou aqui preocupada que não vá embora dos meus dias… Acho que está sendo má influência na minha vida. Porque ando me sentindo só e tem doído um pouco a solidão. Acho que estou sofrendo, porque você fica aí desfilando com esses rolos de filmes antigos e ouvindo essas músicas melancólicas achando que não estou dando pela sua presença. Mas estou te vendo, amiga… O tempo todo.

Logo eu, que sempre falei tão bem de você, que digo para quem quiser saber que a gente só te sente por perto quando as lembranças são boas demais e que te sentir é bom, sabe? Não estou te entendendo.

Em nome da nossa amizade, eu vou te dizer, você pode ficar se quiser, e pode sentar aqui nessa mesa e tomar um café comigo todos os dias. Pode dividir o travesseiro comigo a noite e a gente bate um papo até eu pegar no sono, não tem problema. Mas não gosto desse pessoal com quem você tem andando. E gosto muito menos que você os traga para casa. Se quiser, converse com eles lá fora!

Se livre deles e pode entrar. Tranque a porta quando passar e não esqueça de apagar a luz. Pede também pro cachorro não me interrogar com os olhos daquela maneira, eu sei que você anda conversando com ele. E quando deitar, vê se dorme… E aprende a conjugar o verbo passar. Aí você pode ficar.

♪saudade é pra quem tem♪

Psiu! Pare com essa cantoria! Me deixa quieta um pouquinho… Droga! Às vezes eu queria que você não existisse…

Luciana Marques

Imagem: Poema Saudade, de Pablo Neruda.

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